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O Cinema da Praça


Depois de breve, e já habitual, conversa com o Alfaiate, Audite deixou a loja e atravessou a rua em direção à praça em frente. No trajeto, lançou rápido olhar pelas curvas passarelas que contornam as árvores e jardins, e percebeu Nihil lá no meio, sentado a um banco. Nihil sempre pontual, sempre rigoroso nos compromissos assumidos.


A tarde esmaecia, em poucos minutos estaria anoitecendo. Um ligeiro cumprimento, protocolo profissional de colegas de trabalho suavizado por um inequívoco tom de amizade nascente, Audite sentou-se a seu lado.


Como foi com o Alfaiate? Nihil sempre direto ao ponto, sem escalas, fez o cumprimento parecer cartão de embarque para mais uma rodada fiscal da auditoria que realizavam em conjunto.


Um pensamento se interpôs à resposta, gerado pela imagem que lhe ocorrera de um bilhete de aduana.


Aqui na praça, ao ar livre, é agradável. Mas logo vai escurecer, e o tempo vai esfriar, comentou. Apontou então para o prédio lá na ponta da praça. É um cinema, não é? Ao estilo antigo, creio. Deve ter uma cafeteria ou espaço semelhante para conversarmos num ambiente mais aconchegante. O que você acha?


Perfeito, respondeu. Além de perfeito, bem oportuno. A calhar, como dizem os patrícios do Alfaiate.


Sem entender por qual razão seria oportuno, Audite se deu satisfeita pela concordância de Nihil, e rumaram em direção ao cinema. Apesar de ter vindo inúmeras vezes à alfaiataria, de onde é possível avistar o prédio, e ter conhecimento de que se tratava de um cinema, nunca tivera curiosidade em visitar o local.


Por toda a parte superior da fachada, e utilizando como suporte as cinco varandas frontais, estendia-se uma enorme faixa de acrílico, ou material semelhante, representando uma película cinematográfica, com os fotogramas representados por um recorte regular que seccionava a fita à maneira de quadros, sem imagem. No centro, uma figura oval simulava um detalhe dessa faixa, aumentado como se observado por uma lente de aumento, e no seu interior indicando o nome do cinema: Cine Inês.


Próximo à entrada, Audite quis saber se Nihil conhecia o cinema por dentro.


Mais do que isso, talvez. É justamente o que quis dizer sobre ser oportuna a sua sugestão de conversarmos aqui. Aliás, vim hoje com a intenção de falar a respeito.


Para vencer a perplexidade de Audite, que fez estancar a caminhada com ambos parados, ela atônita, diante da entrada, Nihil procurou aguçar a curiosidade dela:


Então, não quer saber? Vamos entrar?




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