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Tom Chopim


Foi de uma das mesas do Bar do Bardo que partiu a discussão. Logo depois que o trio, cantor e violonista, baterista, pianista, interpretou Insensatez. Um clássico da bossa nova. Todo mundo ouviu em silêncio, aplausos ao final. Até que alguém puxou o assunto do plágio.


Sacou a velha comparação, já bastante desgastada pelo Tinhorão, entre a canção de Tom e Vinicius e o Prelúdio n. 4 de Chopin. E foi enveredando por detalhes legais, buscando exibir conhecimento jurídico sobre requisitos técnicos, repetição melódica de sete notas como condição mínima para a caracterização. Para não deixar dúvidas de que sabia do que estava falando, não perdeu a oportunidade de demonstrar conhecimento musical, afirmando que a canção poderia ser considerada um caso de duplo plágio. Não apenas a sequência melódica, mas também o encadeamento harmônico, que se repetia por vários compassos. Do balcão, uma intervenção curta e rápida se fez ouvir, graças a uma pausa no comentário musical.


Tom Chopim.


A conversa esfriou. O pessoal da mesa se virou quase como em movimento ensaiado, em silêncio.


Tom Chopim, repetiu o novo partícipe, enquanto mirava com um sorriso embutido a reação desconcertada do grupo.


Cena de desafio em bar do velho oeste americano, parecia. Um cara cospe pro lado, olha atravessado, abre a jaqueta pronto para sacar a arma. O verbo.


Acho que o amigo aqui tem um probleminha de fala, entendem? Ele quis dizer Dom Jobim. Um tom honorífico para o nome.


Não, não. É isso mesmo que você ouviu: Tom Chopim. Eu disse Tom Chopim. Nunca ouviram falar do chopim? O pássaro? O Jobim, que admirava os pássaros, certamente sim.


Silêncio. Pessoal perplexo, esperando pelo que viria.


Tem até aquela canção com o Francis Hime, Passaredo. Os pássaros. Jobim conhecia muitos pelo nome. Inclusive o chopim. Bem, talvez vocês conheçam por outro nome. Japu, Xexéu, Vira-Bosta. Não? É um pássaro sem ninho, meio cigano, nômade. Se manda no inverno, volta no verão. Deve ter parentesco com a cigarra. É um parasita, vem e coloca os ovos no ninho de outros pássaros, que acabam criando seus filhos. O último da mesa interrompeu a explanação, indignado pelo que entendia ser uma associação não só injusta, como desrespeitosa, pelo tom de ironia.


Tudo bem, então pronunciem o nome do pássaro à francesa, e aí voltamos à audiência de acusação que vocês estão promovendo.


Senhor meirinho, próxima audiência: Antonio Carlos Jobim versus Fryderyk Franciszek Chopin. Desculpe... Chopã. O silêncio voltou a dominar o ambiente por instantes, até que da mesa vizinha veio a tua voz dissidente. De início timidamente tu pediu licença para discordar do consenso que ia se formando, seja por pronunciamentos sérios ou jocosos. Aí a conversa começou a esquentar.



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