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Pênsil, Nihil.



É sempre assim. Ou quase sempre. E assim num repente. Ela está num lugar e, no momento seguinte, está em outro.


Agora, Audite está em frente à Ponte Pênsil. Do lado insular de São Vicente. Luzes mortiças. Nada avista em toda a extensão até o acesso continental. Consulta o relógio. Alguns minutos passados das onze da noite. Avança em direção à ponte e o som de seus passos lentos vai ecoando no silêncio quebrado apenas pelo marulhar das águas. Então...


Nada à vista? Sem dúvida, alguém. No extremo oposto da ponte, um vulto. Nihil à vista? Não consegue discernir. Um desconhecido ninguém, talvez. Anônimo nada. A saber...


Não conhecia Nihil. Nem sequer haviam mostrado um retrato. Fazia uma ligeira ideia do tipo físico apenas pelo que fora descrito por colegas do Auditorium. Àquela distância, não podia inferir nada. Sente que é mais prudente parar de andar. O vulto começa a se mover. Vindo do outro lado, o piso de madeira da ponte começa agora a ecoar os seus passos. Ela fica apreensiva diante daquele vulto que se aproxima.


A única orientação que recebera da organização era de que saberia do que se tratava no encontro que teria com Nihil, naquele local e horário.


Por enquanto, ela não muda de lugar. Continua ali, observando aquela figura estranha vindo em sua direção. Alta, esguia, de chapéu, longo casaco escuro, e pesados sapatos ruidosos em sua caminhada ao longo da ponte. A essa hora da noite, o movimento de carros é mínimo. Apenas um velho veículo acaba de passar.


Somente ela e o vulto, que vem se aproximando devagar. Ela observa, cautelosa. Atenta ao ambiente, ao estranho, a si mesma. Não sente qualquer alteração no ambiente, e na sua presença efetiva ali, naquele momento.


Porém, quando ele chega bem perto, de repente, algo inusitado acontece. O vulto muda bruscamente de posição. De repente, está debruçado sobre a mureta de proteção da ponte, olhando contemplativo, absorto, as águas que separam a ilha do continente, mirando no sentido da Ilha Porchat e, talvez, mais além, do que se podia ver da orla marítima de Santos. No instante seguinte, ele está em pé, no alto da ponte, equilibrando-se nos caibros. Ela conjetura se ele não estaria tomando uma decisão extrema, de se jogar às águas. Mas, percebe então, ele não está se equilibrando nos estreitos suportes. Está como que suspenso. Penso. Pênsil. Ou flutuando. Onde os fios, cordões, amarras?


Diante da cena, em que duas situações parecem ocorrer simultaneamente, Audite opta por intervir na que sugere um possível desfecho trágico.


- Ei, Nihil! É você? O que faz aí em cima?


O vulto pênsil praticamente ignora o seu chamado. Como se não ouvisse. De repente, aquela figura começa a mudar. Ainda é alguém alto, esguio, mas o casaco já não parece o mesmo. Sem que ela percebesse qualquer gesto sobre a sua cabeça, ele já não usa chapéu. Ela não desviara o olhar dele por um segundo. O tempo todo imóvel, e agora não parece a mesma pessoa. Então, do nada ela passa a ouvir o som de um canto agudo, um canto antigo, talvez ancestral até, que começa a se espalhar pela noite. As palavras ressoam na sua cabeça:



Angelical beleza,

Venturas à terra

Traz

a quem apraz

leveza

em sinais de alegoria.

Traz

a quem se faz defesa,

sina de paz

e de alegria

à bélica crueza,

agruras da guerra.


Quando a música termina, o silêncio volta a dominar a ponte. E, tão repentinamente e sem que ela notasse qualquer movimento, quem está lá em cima é o vulto anterior. Nihil? Pensa insistir na pergunta, mas interrompe... Não, não é Nihil. Não deve ser ele. Então, nada fala. E ela se cala. Fica silente, e atenta. E ouve. Ouve o vulto murmurando. Mas não se dirige a ela.


- Tu não está pensando nisso. Podem até achar que sim. Tu aí, sentado nessa mureta, sozinho, o olhar perdido nas águas. Mas nada disso te passa pela cabeça. Há muitos desafios ainda pela frente...


Antes que pense em imaginar quem, ou o quê, seja o vulto, uma voz a seu lado sussura:

- O anjo do guarda-livros.


Audite nota então a presença de Nihil, surgido não se sabe de onde.




A uma alma

Que deseja

Que não seja

Ser sem fim

Que assim alcance

O seu sonho num relance

Assim seja, seja assim.


Desperta, enfim

Do pesadelo de existir

Liberta, enfim

Da dura pena de existir

Que a condena a existir.


Desapareça

O pesadelo de existir

E adormeça

No sono de não existir

No abandono de existir


Que assim se faça

Dar a uma alma o elixir

Sorver a graça

De nada ser, de dexistir

De ser sem fim, inexistir.


A uma alma

Se almeja

Se deseja

Que não seja

Que assim alcance

O seu sonho num relance

Assim seja, seja o fim.


De repente, o vulto interrompe a fala e irrompe numa sonora e prolongada gargalhada. Lá do alto, o som do seu sorriso parece ecoar na madeira da ponte, nos cabos de sustentação... Reverberando na noite escura.


- Sim, vai lá que ainda dá tempo. Tem um ônibus que passa daqui a pouco por aqui. Aliás, em três minutos estará parando no ponto ali adiante. Corre lá.





Inexcerto de Pênsil, Nihil para o inextrato NOVENADAVIDA.






















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