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O Desafio da Meada


Tua primeira sessão de cinema à meia-noite.


Fazia pouco tempo que o horário havia sido inaugurado. Proposta do Maurice Legeard, coordenador do Clube de Cinema. Tentativa de manter a associação atuante, em meio às dificuldades habituais de continuidade das iniciativas culturais. E começou a dar resultado. Tu ouviu muita gente comentando. Não necessariamente pela programação, referida como Cinema de Arte. A novidade de uma sessão de cinema à meia-noite era o que mais chamava a atenção.


O insólito horário certamente não seria o motivo para que tu fosse assistir aquela sessão. Mas a história do filme, trazendo conflitos entre diferentes visões do mundo, numa sociedade marcada por uma política repressora e uma orientação econômica capitaneada pelas forças capitalistas, acabou gerando o interesse e te levou ao cinema naquela horário do penúltimo dia de julho de 1966.


O preâmbulo da sessão começou para ti uma hora antes, sob as luzes mortiças do caminho de acesso à Ponte Pênsil, ligação da ilha de São Vicente com o continente. E a decisão final de ir ao cinema veio meia hora antes da meia-noite. Daria tempo de chegar lá? A preocupação nem te permitiu perceber que tu estava sendo observado, e seguido. Por Audite, auditoria de uma organização fiscal que investigava teu escritório de contabilidade, principalmente em relação às contas do teu cliente alfaiate, da alfaiataria Domínio do Fato.


Audite segue o guarda-livros desde a Ponte Pênsil até o cinema one, numa sessão da meia-noite, a tela guarda

para ambos um grande desafio. A questão universal. Que é...


... o limite do desejo, uma intransponível fronteira ou a escolha possível entre ser ou não ser perante a realidade.


Logo, o guarda-livros e a auditora chegam ao cinema. Enfim, no tempo justo.


SESSÃO DA MEIA-NOITE. 30 de julho de 1966. 24 horas. Cine Roxy, Santos.


Então, o vislumbre do mistério, nos canais da realidade. O arisco desafio da percepção. O confisco do ser por outras sedes da existência. Com risco de não ser nem estar.


Cena do filme


não sei...

longe do real eu me sinto bem no caos do desafio...

que é tão intermitente... tão tenso...

com risco, já se sabe, de nunca mais retornar...

cada vez me sinto mais atada ao fim da meada...

sujeito à impossibilidade de me encantar...

e como é que eu posso voltar sem me silenciar

a voz corrente?


E chega-se à cena pressentida pela auditora. Com estranhs interferências. Distorções da voz. Um terceiro falando por outra linha. Mídia-unidade cinematográfica.


Glauber Rocha: "Sinto que não esteja vivo para comandar os debates que se travam entre Kyneaztaz e Krytykos sobre a Sétima Syntezy das Artyz".


Lá fora, terminada a sessão da meia-noite, anuncia-se que o debate será em outro local.


Se o limite deságua em tudo aquilo que os Kyneaztas desejam, onde estão as fronteiras da razão?


E na trilha os instrumentos afinando, buscando o tom. Talvez, ajustando frequências. A vibração do fio da meada.


Então, transferir desse Cine Glauber Roxy para o cinema da antiga praça.


Num observatório, com a aparência de um velho cinema, em antiga praça da cidade.


Não é a primeira vez que Audite e Nihil vão ao cinema da praça. Mas, agora, sentem algo estranho no ambiente. Parece até que não é o mesmo lugar...


No átrio do cinema...


Ali, do meio do átrio, observam os recintos à volta.






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