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O Acervo do Bahu


Nihil entendeu bem a recomendação do Auditor-Mor. Os indícios recolhidos até então sobre a transcomunidade da Costa Mater apontavam para uma arca, uma espécie de baú, como repositório dos lançamentos do Guarda-Livros. E o local provável onde estaria o Bahu, na antiga grafia constatada nas fontes investigadas, seria o Museu de Imagens de Sombras, outra referência encontrada casualmente nas diligências de auditores iniciantes. Que, por isso mesmo, não tiveram habilidade suficiente para reunir evidências mais precisas de como acessar o museu. A questão foi resolvida inicialmente com a participação de outro auditor. Na realidade, uma auditora, Audite Nova, dotada de refinada capacidade sensitiva. Ela havia conseguido extrair dos primeiros depoimentos do Alfaiate aquilo que seria a chave para o acesso, a transiência. Assim, ao deixar o Auditorium, Nihil rumou imediatamente para o Museu de Imagens e de Sombras, mediante a utilização de artifícios projetivos que, se não o transformavam em transeunte, permitam viver a experiência do deslocamento de camadas como um transutente. Sua percepção era praticamente absoluta: o Bahu estava ali, sem dúvida. Mas, como tudo naquele lugar, não estaria ostensivamente exposto à apreciação de visitantes ou pesquisadores. Só se daria a vislumbrar se algum vínculo entre ambos se estabelecesse de modo muito forte, provocando o seu desvendamento. Poderia estar em um nicho de parede, em um corredor, no meio de uma sala, no canto de um quarto, no porão, no sótão, poderia estar dentro, poderia estar fora.


Começou então a percorrer todos os espaços, os grandes vazios, do Museu. À medida em que avançava, sentia ser ele que começava a ser percorrido. Por uma estranha sensação que se alastrava pelo seu corpo, pela sua mente, pelo ser do seu ser. Enquanto esquadrinhava cada detalhe dos pisos, tetos e paredes, buscava formar uma imagem do Bahu. Nada se sabia sobre o tamanho, formato, material, cor. Poderia talvez estar à sua frente e não ser reconhecido?

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