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Mirante


A generosidade editorial de Valdir Alvarenga tem acolhido, em vários números da longeva revista Mirante, que criou junto com Antônio Canuto, alguns textos que venho escrevendo, poéticos e musicais.


Mas os vínculos que me ligam à Mirante vão muito além de inserções tópicas. Estendem-se por praticamente todo esse período, agindo em mim na forma de uma particular compulsão

criativa, que vem de princípios dos anos de 1980. E não é finda, ainda.


Começa com um Poema Doméstico, introduzido pela seguinte epígrafe:


É um poema doméstico que Martins Fontes, Ribeiro Couto e Vicente de Carvalho, entre outros, poderiam ter dedicado aos poetas anônimos de sua cidade.


O poema tem sua origem suscitada justamente pela iniciativa editorial de Valdir Alvarenga e Luiz Antônio Canuto, de criarem a revista Mirante, em princípios dos anos de 1980.


Quarenta anos depois, esse poema, incorporado musicalmente a uma canção, e ampliado para um ciclo de canções, constitui-se por sua vez como epígrafe, redimensionada, de um hiperciclo de canções: Canções dos Santos da Casa.


O percurso entre os dois pontos extremos dessa trajetória talvez não diga o suficiente sobre o que representa, no âmbito cultural, a realização de Alvarenga e Canuto. Mas diz o essencial da marca que deixou, e reforçou, numa percepção pessoal sobre o significado da arte no mundo.


Refazendo o trajeto, as lembranças remetem ao primeiro contato com os escritos e a atuação de Alvarenga e Canuto no contexto de uma agitação cultural estudantil, em que despontava um grupo literário, o Picaré. Contato que teve o objetivo de divulgar esse movimento, oferecendo o espaço de um modesto programa radiofônico (Domingo Especial) apresentado na Rádio Clube de Santos por Gil Nuno Vaz, Sérgio Trombelli, Marcelo Di Renzo e Márcio Pinheiro, numa experiência brotada de um curso de formação de radialistas conduzido por Walter Sampaio e Vicente Ayres, no colégio do Carmo. O espaço se estenderia depois a outra estação (Rádio A Tribuna AM, de Santos) e outro programa radiofônico (Gente No Ar).


A intenção da revista, como a percebi, era de erguer uma plataforma de observação e projeção voltada tanto para a obra de poetas consagrados como de poetas anônimos, de Santos e outras cidades. É nesse ponto que o vínculo duradouro se estabelece: o duplo olhar do poeta-observador. De um lado, uma visão reflexa para o passado, que tangencia mas não se emaranha nos "grandes nomes", no culto a personalidades, mas voltada para obras que a história consagrou. De outro lado, a perspectiva da reflexão sobre o universo desconhecido de criações por descobrir e revelar, sem amarras conceituais e estéticas.


Um modo de olhar/escutar a realidade artística que eu vinha vivenciando na música desde a década anterior, com o Madrigal Ars Viva e o Festival Música Nova. Então, ao começar a escrever artigos críticos sobre música para o jornal A Tribuna, no início dos anos de 1980, coincidiu de surgir uma excelente oportunidade de lançar esse olhar/escuta para a criação musical de Santos e da região da Baixada Santista. Em 1983, a concha acústica instalada nos jardins da praia, ao lado do Canal 3, abrigou, durante quatro dias em dois fins de semana, uma mostra coletiva de música criada por autores locais ou ligados à cidade, em apoio ao Centro dos Estudantes de Santos. Como pouco, ou quase nada, era encontrado na imprensa que apresentasse reflexões críticas sobre essa produção artística, decidi escrever sobre o que vi e ouvi "na concha, a música dos santos da casa".


A junção daquela percepção do campo poético, na revista Mirante, e da reflexão crítica do campo musical, no jornal A Tribuna, transformou-se gradativamente no projeto de uma coleção de canções que reunisse obras (não necessariamente conhecidas) de autores consagrados da literatura local com obras praticamente desconhecidas de "poetas anônimos", uma referência com a intenção de remeter aos autores desconhecidos de tempos remotos.


E daí surgiu a concepção do hiperciclo de canções Canções dos Santos da Casa, até então inacabado. Ou, talvez, qual uma sinfonia inacabável, vínculo permanente. Ou, talvez, faltando um último remate que encontre a música certa para um curioso anagrama que se esconde no título da revista Mirante. Uma canção que emule o conhecido verso de Fernando Pessoa, "o poeta é um fingidor".





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