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Lira de Ambrosia: um happening para dois Gils


Lira de Ambrosia: um happening para dois Gils foi um espetáculo idealizado e montado pela soprano Adriana Bernardes e pelo pianista Antônio Eduardo, com base no ciclo de canções Lira de Ambrosia, que é incorporado na íntegra ao espetáculo.


A estreia ocorreu no dia 20 de março de 2015, no Auditório do Instituto de Artes da Unicamp, em Campinas, como evento do II Festival de Música Contemporânea Brasileira, nas apresentações em homenagem ao compositor Gilberto Mendes.


A apresentação gerou percepções confusas sobre os limites das duas obras (o espetáculo cênico musical e o ciclo de canções), bem como sobre as autorias envolvidas nessa proposta artística.


Por exemplo, o grupo Sintonize, que registrou em vídeo o evento, informa em seu canal de divulgação que a apresentação artística “Lira De Ambrosia: Um happenning para dois Gils”, de Antônio Eduardo e Adriana Bernardes, fez parte das homenagens ao compositor Gilberto Mendes no FMCB 2. A "Lira De Ambrosia" é um ciclo de canções do álbum "Canções dos Santos da Casa" de Gilberto Mendes e justaposição de Gil Nuno Vaz. A fonte de tal informação foi provavelmente o programa oficial do evento.



Adicionalmente, manifestações particulares de pessoas ligadas ao compositor apontaram ter havido uma interferência exacerbada nas obras originais, ou seja, nos primeiros prelúdios para piano de Gilberto Mendes.

Tudo isso enseja algumas considerações, tanto factuais como conceituais.


Começando pelas considerações factuais, recapitulo desde a gênese mais remota a história do ciclo LIRA DE AMBROSIA. Em meados da década de 1990, o pianista Antônio Eduardo gravou o disco (CD) AMOR, HUMOR E OUTROS PORTOS: A música pianística de Gilberto Mendes, sobre o qual escrevi um artigo publicado no jornal A Tribuna, de Santos. Foi o primeiro contato que tive com essas peças iniciais da carreira do compositor, finamente interpretadas pelo pianista.


Em conversa com Gilberto Mendes, comentei que sentia nos prelúdios, embora instrumentais, uma abertura potencial muito forte para dialogar com a literatura. Comentei imaginar até uma voz de canto sendo acrescentada, talvez na linha da adição feita por Charles Gounod ao prelúdio n. 1 do Livro I de O Cravo Bem Temperado, de Johann Sebastian Bach, que resultou na famosa Ave Maria (Bach-Gounod). A reação de Gilberto Mendes foi de sugerir, de imediato e numa anuência tácita, que eu desenvolvesse a ideia.


Durante anos, tentei criar uma melodia adicional e texto próprio para o Prelúdio n. 4, e acabei desistindo. Até que em 2013, um feliz acaso, que gerou a canção COLO DE ALABASTRO, me fez adotar uma solução diferente: justapor poemas preexistentes às melodias originais dos prelúdios. Procurei então deixar o compositor a par do que eu havia feito, sem que houvesse da parte dele qualquer manifestação contrária à minha interferência. Foi um relato pessoal sobre o processo de criação da canção, cujo título na época - Eu vi Narcina um dia - era o texto do verso inicial de um soneto de José Bonifácio, e que só viria a ser executada em 2014, pela soprano Adriana Bernardes e o pianista Antônio Eduardo.


Assim, se alguns entendem que houve algum desvirtuamento do pensamento criativo de Gilberto Mendes, não me parece que tal percepção encontrou eco no sentimento do compositor.


Quanto às considerações conceituais, é preciso antes destacar, discutir ou repensar, o papel de certos condicionamentos à compreensão e percepção de aspectos da criação e da autoria artística.


Um dos aspectos é a delimitação do campo formal que atua no enquadramento de uma determinada obra dentro de uma tipologia taxonômica. Assim, um prelúdio é uma peça musical instrumental, e um soneto é um poema, dois tipos distintos e independentes de arte. Uma canção, por sua vez, não é nem uma peça musical, nem uma peça literária, é no mínimo uma combinação de elementos de dois campos materiais e formais construindo um terceiro tipo. Então, tomando como exemplo a canção Colo de Alabastro, ela não é o Prelúdio n. 4 para piano de Gilberto Mendes. Tampouco é o soneto Eu vi Narcina um dia, de José Bonifácio. É uma peça distinta, embora formada por essas duas obras.


Surge, então, o problema da autoria. Imaginemos que Colo de Alabastro fosse uma canção popular, com a música escrita pelo compositor e o texto por um letrista. Os autores seriam consignados como uma dupla: o nome do compositor e o nome do letrista. Se Colo de Alabastro fosse escrita por Gilberto Mendes, para musicar o soneto de José Bonifácio, a referência autoral, como é usual no meio da música erudita, seria apenas o compositor, Gilberto Mendes. No máximo, seria indicado à parte o nome do poeta, como informação complementar. E, no caso da justaposição, quando a canção nasce de um ato de conjunção, de acoplamento de duas obras preexistentes, realizado por uma terceira pessoa? Esse terceiro não é o compositor, nem é o poeta. É o acoplador, aquele que faz a justaposição entre as duas obras, criando a canção. Poderia ele ser chamado de justapositor?


Estenda-se esse condicionamento para o ciclo como um todo, e a sequência lógica é incorrer no equívoco de considerar Gilberto Mendes como autor de LIRA DE AMBROSIA. É plausível argumentar, pelo menos em parte e no caso específico desse ciclo, que a percepção equivocada da autoria pode resultar do fato de que as peças musicais justapostas são todas do mesmo compositor. Por outro lado, seria razoável estranhar-se que o compositor fosse o autor de uma obra em sua própria homenagem. Não bastassem esses focos de equívocos, o espetáculo deu margem inclusive a subentender como de autoria de Gilberto Mendes também o ciclo CANÇÕES DOS SANTOS DA CASA, que é uma espécie de hiperciclo, ou seja, um álbum constituído por vários ciclos de canções.


Resumindo: o ciclo de canções LIRA DE AMBROSIA não é o espetáculo Lira de Ambrosia: um happening para dois Gils. O ciclo LIRA DE AMBROSIA contém cinco canções, escritas pelo processo de justaposição, que devem ser executadas numa determinada sequência, o que lhe dá o sentido de ciclo. O espetáculo Lira de Ambrosia: um happening para dois Gils incorpora o ciclo de canções, mas intercala, a cada canção, a peça para piano correspondente em que se operou a justaposição com o texto poético. Além disso, desenvolve uma concepção cênica que não está prevista no ciclo, podendo-se dizer que nem é rigorosamente pertinente ao texto, embora possa ter sido por ele inspirada. Se há, por exemplo, um vínculo fonético entre o título A Canção do Rei de Tule e o nome de um material têxtil (tule) usado como elemento cênico, a referência do título diz respeito a uma ilha imaginária e não a um tipo de tecido.


Finalizando, devo confessar que tais confusões conceituais não me causam incômodo. Acho que me ajudam a refletir sobre os pré-conceitos que nos condicionam e limitam, mas, principalmente, integram a essência do que persigo na criação artística: procurar novas experiências, novos caminhos, não necessariamente revelados por força de obras impactantes, mas no seio das construções aparentemente mais comuns e corriqueiras.


Registro exibido pelo canal UNIVESP no Youtube, do concerto em homenagem ao compositor Gilberto Mendes, em 20/03/2015, no Instituto de Artes da Unicamp, em Campinas. O trecho correspondente ao espetáculo Lira de Ambrosia: um Happening para dois Gils vai da marcação de 9min50s até 28min45s.



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