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Dos Anéis de Saturno ao Dedo de Deus


Um pequeno deslize do Alfaiate. E abre-se uma fresta de acesso por onde Audite Nova penetra no limiar do mistério.

01 - O ANEL PERDIDO

Final de expediente na alfaiataria Domínio do Fato. O último cliente já havia sido atendido. Há cerca de meia hora, o Alfaiate adiantava alguns procedimentos para o dia seguinte, traçando a giz os cortes que faria pela manhã. De repente, lembrou-se do compromisso que marcara com Audite Nova. Ainda não se acostumara com o estranho nome latino da ouvidora que, há algum tempo, ali vinha ter insistentemente. Em busca de informações, dizia. Inicialmente sobre o guarda-livros. Ultimamente, o seu interesse se expandira um bocado para outros assuntos, de tal modo que o motivo original começava a parecer apenas simples pretexto. Um subterfúgio para chegar a outros temas. 


Foi até a porta do estabelecimento, ainda aberta, e começou a fechá-la. O aprendiz saíra junto com o último cliente, pois estudava à noite e, como ia fazer prova logo mais, pediu um tempo para rever a matéria. Pouco antes de cerrar a porta, pela pequena abertura das duas folhas, observou o céu já noturno, onde despontava uma lua cheia extremamente iluminada. Depois de alguns segundos, intervalo que sentiu como uma suspensão do tempo, terminou de fechar a porta, e se dirigiu decididamente para a salinha traseira, um modesto escritório.


De uma das gavetas de sua mesa retirou o livro do poeta conterrâneo, Guerra Junqueiro, que separara para ler nos raros momentos de pausa do trabalho: o polêmico "A Velhice do Padre Eterno". Com a ajuda do marcador, abriu o livro na página em que parara no dia anterior e, calmamente, retomou a leitura. E, como sempre, mal começava a ler, seus dedos polegar e médio da mão direita tocavam o anel na mão esquerda, iniciando um gesto tão automático quanto ritual de girá-lo ora para um lado, ora para outro. O anel encaixava-se com certa folga no dedo, de modo que não oferecia resistência significativa ao movimento compassado. Poderia ficar fazendo isso durante horas.

Desta vez, entretanto, o ritual seria quebrado por uma incisiva batida à porta, mal começara a folhear o livro. Apesar de saber que Audite Nova poderia chegar a qualquer momento, assustou-se com o ruído. Numa reação involuntária, puxou bruscamente o anel, que se projetou quase como um objeto voador, indo tocar o assoalho em algum ponto bem distante da mesa. Ao bater no chão com a superfície da circunferência, o anel rapidamente rolou pela sala e, antes que pudesse perceber o trajeto, sumiu de vista, provavelmente indo parar sob um dos móveis. 

O alfaiate esboçou uma tentativa de procurar pelo anel, quando ouviu baterem de novo à porta. Desta vez, três batidas discretas e regulares. Decidiu deixar a busca para depois e, colocando o livro sobre a mesa, foi atender. De fato, era Audite.


- Desculpe, me demorei um pouco, apressou-se a dizer. - É que...

- Não há porque se desculpar, antecipou-se, para dissipar o embaraço da visitante. Vamos entrando, por favor.

- Obrigado. Vou procurar ser breve, para não prendê-lo mais tempo ainda..., tentou compensar.

- Há tempo suficiente, fique despreocupada. Estava apenas me dedicando a uma leitura, enquanto não chegava.

Audite ficou curiosa. Perguntou do que se tratava. - É um texto poético sobre a existência de Deus.  - Ah, sim? Não imaginava que se desse a leituras desse tema. - Poesia? Ou Religião? - Ambos. De fato, a junção de ambos é que me causa o espanto, acho.  - É razoável, comentou o Alfaiate, sorrindo, enquanto dispunha uma cadeira próxima ao balcão, indicando a  Audite que ali se sentasse. - Lembrei-me agora de que preciso arrumar algumas peças que deixei sobre o balcão. Importa-se que eu vá fazendo isso enquanto conversamos? - De modo algum. - Então, podemos começar.  Audite ajeitou-se na cadeira e suspirou longa e profundamente, antes de iniciar a entrevista. - Podemos começar a partir do que acabamos de falar? Digo, esse livro de poesia sobre a existência de Deus? - Não vejo por que não, respondeu o Alfaiate, parecendo desenhar no rosto uma expressão de indiferença. - Pois bem, então, essa leitura, procurou saber Audite, tem algum título que sugira o seu objeto específico de reflexão? Ao responder, o pensamento do Alfaiate abriu espaço para um jogo de palavras que alguns colegas faziam com o título do livro de Junqueira. E foi essa a informação que prestou:

02 - A VELHICE DO JOGO ETERNO


03 - À PROCURA DO ANEL



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