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A Velhice do Jogo Eterno



- O título do livro é "A Velhice do Jogo Eterno", informou o Alfaiate. Tão logo declinou a informação, uma retração involuntária e incontida turvou a expressão facial de Audite Nova. - Desculpe-me, respondeu polidamente. Não quero que me julgue desrespeitosa, mas esse título me parece um inconsequente jogo de palavras. E, se houver nele intenção humorística, acho de duvidoso gosto. - Posso saber por quê?, voltou-se para ela o Alfaiate, que se ocupava em apanhar alguns tecidos nas prateleiras. - Bem, creio que se trata de uma referência despropositada ao livro "A Velhice do Padre Eterno", de Guerra Junqueiro. Não é esse, porventura, o livro que está lendo? O Alfaiate sorriu, já reordenando os tecidos em cima do balcão. - Sim, sim, pois é esse mesmo, escrito por meu conterrâneo. E concordo com a sua indignação. Entendo como se sente, porque também já me senti assim, creio. Ante a curiosidade que se estampou na expressão de Audite, prosseguiu: - Foi quando ouvi uma variação dessa referência, à base de um trocadilho. Esse, sim, foi acintoso. - E que trocadilho foi esse? - "A Velhice do Jugo Eterno". Veja só! Isso é coisa que se diga? Como se o grande criador fosse um ditador, um tirano. - E posso saber de que tipo de pessoa veio tal brincadeira? - Bem, não sei lhe dizer o nome, precisamente. E também se lembrasse quem foi, acredito que não o conheceria. - Como assim? - Certamente, foi um dos colegas que fazem parte do grupo de que participo. São pessoas de diferentes credos religiosos e filosofias. Reunimo-nos para debater temas afins, muitas vezes a partir de textos científicos, poéticos, ensaios... - Parece ser algo bem organizado, já que envolve leituras específicas, considerou Audite. - Exatamente. O grupo se reúne há mais de um ano e, quase sempre, fazemos um encontro por semana. - E já chegaram a algum consenso? - E há como chegar a isso?, retrucou o Alfaiate, com certo tom brincalhão. E emendou, ante o olhar perplexo de Audite; - Afinal, é tão grande o mistério do Universo! Como esperar compreendê-lo em pouco mais de um ano, uma vez por semana, não é mesmo? - É, anuiu Audite, mais com um aceno do que com a palavra. Em seguida, o Alfaiate interrompeu a fala por alguns minutos, aparentemente concentrado na disposição manual dos panos. Quando retomou a conversa, foi como se não houvesse descontinuidade. - Mas, receio que o jogo de palavras não se esgote nessas referências ao texto do velho Junqueiro. Penso, sim, que o Padre Eterno foi incluído no jogo com a finalidade de se criar uma dupla referência. - Como assim?, interveio Audite, existe outra referência embutida aí? - Pois é como digo, o Alfaiate ressaltou. Ao que me consta, o tema atualmente em debate era tratado originalmente como "A Eternidade do Jogo da Velha". Até que alguém fez esse jogo de palavras, referindo-se ao tema como "A Velhice do Jogo Eterno". - E por que isso?, estranhou a ouvidora. O que o jogo da velha tem a ver? Estamos falando daquele joguinho de círculo e xis, não é? Que ganha quem traçar uma reta vertical, horizontal ou diagonal ligando três lances? - Exatamente. - Sinto, mas não consigo entender que relação o jogo da velha pode ter com um assunto tão vasto, complexo e polêmico. - Veja bem. Sempre que nos referimos ao grande criador, nós o imaginamos como um velho barbudo, não? É inclusive a imagem a partir da qual Guerra Junqueiro escreveu o livro. - Sem dúvida, concordou Audite. - E, preste atenção, fala-se de um velho, não de uma velha. É aí que entra o Jogo da Velha. Por que não uma divindade feminina, na origem de tudo? - Mas isso não ocorre por força de regra gramatical do idioma? A língua portuguesa não tem pronome para a neutralidade de gênero. - Sim, verdade. Mas, se a questão fosse essa, a língua inglesa, por exemplo, não usaria o pronome masculino para o nome de Deus. Os povos de língua inglesa não usam "It", e sim "He". - Hmmm... - Aliás, falando do idioma inglês, lembro que um escritor dos Estados Unidos já fez essa transposição de gênero aplicada a divindades. Salinger, já leu algo dele? - Não, certamente não. Nem sequer ouvi algo a respeito até agora. - Pois é. Está num conto, bastante extenso até, que leva o nome do personagem central: Zooey. Audite continuava atenta, acompanhando a fala do Alfaiate com intensa curiosidade. - Na história, esse Zooey, cujo nome é diminutivo familiar de Zacarias, havia participado, na infância, de um programa radiofônico que promovia competições intelectuais entre crianças. No final da história, ele revela para sua irmã mais jovem, Franny, uma peculiaridade envolvendo um irmão mais velho, que também participara do programa, nas emissões iniciais. - E qual era a peculiaridade?, Audite apressou-se a perguntar, os olhos abertos de ansiedade. - Era o seguinte: Zooey costumava ir ao programa com os sapatos sujos de pó. Uma vez o irmão chamou a sua atenção para seu desleixo. Zooey retrucou então que não era necessário tal cuidado, pois, como os participantes ficavam sentados atrás de uma mesa fechada, o público não poderia ver os seus sapatos. E, ademais, ele não iria se preocupar em engraxar os sapatos para aquela audiência de idiotas. - Um pouco de humildade caberia bem ao rapazinho, não é?, observou Audite. - Também acho, concordou o Alfaiate. - Mas, continuando, o irmão disse que era irrelevante se o público não via os sapatos. O que importava era que a Gorda Senhora estava vendo. O Alfaiate fez uma pequena pausa, olhou de relance para Audite, e complementou: - Na minha terra, a edição em português traduziu a expressão original, Fat Lady, por Dama Gorducha. Soa mais engraçado, pois não? - Sem dúvida, Audite concordou, emendando no mesmo fôlego, curiosa: - Mas, que Gorda Senhora é essa? Era jurada do programa, ou coisa assim? - Não, nada disso, apressou-se o Alfaiate a responder, e é aí que chegamos à Velha. Ou perto. Fez uma breve pausa, com indisfarçável intenção de criar suspense, e prosseguiu: - - Acaba de fazer a mesma pergunta que a garota do conto, Franny, fez ao irmão. Zooey. E que, por sinal, este já havia feito ao outro irmão, cuja resposta foi, ipsis literis, que "a Gorda Senhora era Jesus. Ele mesmo, Cristo em pessoa." Depois de alguns segundos de silêncio constrangedor, Audite considerou: - Entendi... isto é, acho que não. Ou talvez. Não tenho certeza. É essa passagem do conto que justifica a substituição de gênero da divindade? Ante a perplexidade de Audite, o Alfaiate emendou: - Bem, veja que ele não se referiu diretamente a Deus, mas a Jesus, que os cristãos afirmam ser filho de Deus. Assim, não é uma associação estrita, se tomarmos o critério genealógico como base. Mas há, por outro lado, a crença religiosa na trindade, que reúne Pai, Filho e Espírito Santo na mesma condição essencial. - Confesso que ainda fico desorientada diante dessa explicação. Não consigo... - ... ver onde está a necessidade de mudança de gênero, completou o Alfaiate, perguntando a seguir se estava certa a complementação. - Sim, talvez não seja exatamente por isso, mas é por aí, Audite assentiu. - Uma grande parte dos questionamentos que o grupo formula tem a ver com as palavras que usamos, as imagens com que ilustramos, as formas com que idealizamos o mundo espiritual. Que mostram, não raro, certas incoerências e, às vezes, muitas inconsistências. - Por exemplo? - Mãe Natureza. - Como? - Pois, não é que chamamos a Natureza de mãe, porque dela nos vem a vida? - Sim. - Então, porque nos referimos a Deus como Pai, se d´Ele, assim mesmo com maiúscula, vem toda vida, inclusive a própria Natureza? Audite suspirou profundamente, parecendo esgotada em tentar entender a lógica dos argumentos que lhe eram apresentados. Resolveu condescender: - Tudo bem, ainda que não tenha captado a essência do seu argumento, vou aceitá-lo, por ora. Mas, por que a Velha? Por que o Jogo da Velha? - Ah, aí chegamos ao ponto. Na verdade, não sei se serei capaz de reunir as palavras adequadas para uma explicação plausível... - Acredito que sim, cortou Audite. - Aliás, gostaria de fazer uma observação, mas sob a condição de que, de modo algum, seja entendida como menoscabo ou ofensa semelhante. - Puxa, fiquei preocupado agora, brincou o Alfaiate. - Pode dizer, não tomarei o que disser em qualquer caráter de menosprezo. - Então, está bem. O que ia dizer é que tenho a forte impressão de que o seu vocabulário excede em muito a formação intelectual que normalmente seria de se esperar de alguém com sua especialidade profissional. Não é um juízo, certo? É uma constatação, fruto de experiência pessoal. - Entendo perfeitamente. E não me sinto ofendido. Ocorre que sempre tive interesse por estudos, mas nem sempre contei com oportunidades e tempo para me dedicar a eles como gostaria. E desde cedo o dom da retórica me fascina. A habilidade de usar palavras únicas para determinados assuntos e situações. Deteve-se por instantes, como se lembrando de algum episódio distante. - A propósito, ligando as artes do linguista e do alfaiate, ouvi contarem certa vez que um escritor brasileiro, lembro-me vagamente de terem mencionado Humberto de Campos, dizia que usava as palavras como se fossem roupas, vestindo seus pensamentos com os trajes adequados aos temas que abordava. E gabava-se de ter um vasto vestuário. Sorriu discretamente, ajeitou mais um jogo de tecidos sobre o balcão, e continuou: - Mas, voltemos à sua pergunta. Na verdade, foram duas. E acho que só conseguirei responder a contento uma delas, o porquê da Velha. Apoiou o antebraço no balcão, virando-se para Audite: - Sabe bem como foi criado o jogo da Velha? - Não, não sei. - Pois bem, conta-se que a origem é bem remota, há registros que remontam à Antiguidade. E nem todas as culturas o denominam Jogo da Velha. Em inglês, usa-se ora tic-tac-toe, ora noughts and crosses. Mesmo na minha terra é mais comum chamá-lo de Jogo do Galo. Mas o que levou ao nome Jogo da Velha parece ter sido algo mais recente, uma prática de camponesas idosas inglesas do século dezenove, que aos finais de tarde passavam o tempo disputando esse jogo. A essa altura, Audite sentiu que talvez estivesse se alongando demais, deixando a conversa fluir sem muita objetividade e talvez cansando o Alfaiate, que parecia ter ainda trabalho a fazer. - Bem, eu me comprometi a não tomar muito do seu tempo, mas gostaria de prosseguir com algumas questões. Pode ser? - Claro, respondeu, mas já emendando com uma sugestão que, de certo modo, confirmava a a percepção de Audite sobre o seu cansaço. Mas, podemos fazer uma breve pausa para um cafezinho. Faço rapidamente. Aceita? - Virá a calhar, obrigado. O Alfaiate deixou de mexer nos tecidos sobre o balcão, e se dirigiu para a pequena copa no fundo do estabelecimento. Ao passar em frente à sala do escritório, lembrou-se do anel que deixara cair, e parou por instantes, lançando um olhar sobre o ambiente. Audite notou o olhar preocupado: - Alguma coisa de errado?. perguntou. - É que deixei cair um anel agora há pouco, antes de sua chegada, e não consegui ver onde foi parar. - Quer que ajude a procurar, enquanto faz o café? - Agradeço a gentileza, se quiser passar uma vista de olhos por aí. Mas não se canse. Amanhã, meu ajudante certamente o achará, ao fazer a limpeza antes de abrirmos.

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