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A questão musical de Hamlet


















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A questão musical de Hamlet

(publicado no jornal A Tribuna de Santos de 29/04/1985)



Na montagem de Hamlet, semana passada em cartaz no Teatro Municipal, um detalhe para despertar curiosidade: música de Lívio Tragtenberg. Eis a questão: ser ou não ser possível colocar uma concepção musical atual numa realização tradicional do texto clássico de Shakespeare. Com a palavra o compositor: “Muitos autores já escreveram música para Hamlet, inclusive nomes expressivos da produção contemporãnea como Hans-Wewrner Henze. A grande maioria, entretanto, faz música de época, que funciona em termos de ambientação, reforço de clima”.

Lívio Tragtenberg procura não fazer meteorologia musical. O texto já traz o clima, o cenário já é reforço suficiente. Basta apenas a transposição do momento, de sua carga emocional, cômica ou trágica, para a música: dualidade de som e cena.

Na pontomima em que os atores representam o crime do Rei Cláudio, cabe um divertimento em torno de obras consagradas, como Una furtiva lacrima, de Donizetti, a marcha fúnebre de Chopin, e La Donna é mobile, de Verdi, acrescentando comentários musicais em tom de sátira. na autoconfissão do rei, um simples pedal de órgão marcando , entre longos silêncios, uma nota solene. Nada de acordes atormentados. Um novo código morse para o remorso. Já no diálogo de Hamlet com o espírito do rei, as intervenções musicais, exacerbadas, parecem refletir aquele tumulto típico de muitas orquestras de aves (?).

Hamlet não é a primeira experiência de Lívio em música para cena. O teatro, a poesia e o movimento fazem parte do campo de ação em que ele exercita a criação musical. Escrevendo sobre o trabalho que desenvolveu a partir de O Inferno de Wall Street, de Souzândrade, o compositor deixa isso bem claro: “A música de cena para o poema deve obedecer a suas estruturas originais. Estas incluem utilização de manchetes de jornais da época, gíria, citações literárias ou ironizadas. A sintaxe musical deve adequar-se a esse fôlego épico-pipocante do poema. Portanto, uma música com citações, clichês de óperas e operetas”.

Atualmente, ou melhor, há alguns anos, vem elaborando uma obra sobre as Galáxias, de Haroldo de Campos, que ele chama de “inferno de all–street”, num trocadilho com o poema de Souzândrade. Comenta (lamenta), a propósito, as polêmicas armadas em torno da poesia concreta. Pão amanhecido é a imagem que lhe ocorre a respeito, enquanto se refere ao boicote que é sistematicamente exercido sobre os concretistas.

Em 1981, Lívio Tragtenberg partiu para a produção de um disco por via independente, Ritual, onde estão registradas seis composições de sua autoria. A sua posição quanto à produção independente está bastante definida em artigo publicado na época eufórica do fenômeno: “A produção independente tem um enorme sentido de existência, enquanto geradora de liberdade criativa. De reação à cópia. Não deve ser escrava da máquina estética industrial do mercado fonográfico”.

Ele não pensa, com isso, que o músico independente deva amarga a condição de sempre bancar seu projeto, acreditando num campo de ação em que ninguém saia perdendo. E o seu segundo LP está sendo preparado nesse sentido. As gravações são realizadas na medida das possibilidades e o material guardado para aproveitamento no momento em que se viabilizar a oportunidade do disco.

Esse álbum deverá conter uma parte com canções provençais, e outra baseada num texto de James Joyce. Com relação ao trabalho sobre textos provençais (a partir das traduções de Augusto de Campos), vale a afirmação feita a propósito da estética enraizada no nacionalismo: “pelo fato de nossa cultura ser uma resultante de diversas influências (África, Europa), devemos encará-la com liberdade. Não se aprisionar nela mesma. A própria multidirecionalidade das expressões culturais no Brasil deve servir de exemplo e demonstração de que é necessário transcriar o passado”.

Para quem não (ou)viu Hamlet com música de Lívio Tragtenberg, a peça deve voltar ao palco do Teatro Municipal, face ao sucesso de público que obteve, numa curta temporada que terminou musicalmente sob forte comoção: o público cantando o Hino Nacional ao final do espetáculo, após ser comunicado sobre a morte do presidente Tancredo Neves. Sai de cena Tancredo, fica o credo.

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