top of page

A importância cultural e turística da Fundação da Vila de São Vicente
















A importância cultural e turística da Fundação da Vila de São Vicente


Gil Nuno Vaz


O espetáculo da Fundação da Vila de São Vicente, encenado na areia da Praia da Biquinha, vem sendo realizado há vários anos, procurando resgatar, ainda que timidamente, a importância do fato dentro da nossa História. Este ano, entretanto, a iniciativa veio acompanhada de uma decisão política bastante definida, com o objetivo de incluir o evento nos festejos oficiais de comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil. E, evidentemente, de marcar a cidade como polo turístico nacional, a partir desse apelo histórico-cultural.
A montagem ganhou produção profissional, com direção de Tanah Correa, e a participação de atores de expressão nacional, quase todos originários da região, como Ney Latorraca, Jonas Melo, Alexandre Borges, Júlia Lemmertz, Ed Botelho, além do ator português José Moreira, que veio especialmente para a apresentação. O evento teve largos espaços de divulgação na mídia, inclusive com duas entradas ao vivo no Fantástico, matéria no VideoShow, programas da Rede Globo, além da cobertura de vários outros veículos.
O momento obriga a algumas reflexões sobre as possibilidades que se abrem para a exploração do potencial turístico e cultural, não só de São Vicente como dos demais municípios da Baixada Santista. Talvez seja este, inclusive, o primeiro grande teste para a consciência metropolitana de nossos dirigentes e políticos locais. A consciência de que um evento como esse não beneficia apenas São Vicente, mas pode trazer resultados também para toda a região. É uma questão de humildade, respeito mútuo e cooperação.
É justamente nos termos dessa necessária colaboração, que tomo a iniciativa de apresentar algumas sugestões, idéias que defendo há algum tempo, muitas delas já expostas nas páginas deste jornal. Para desenvolver uma estratégia conjunta de exploração desse potencial, entendo ser essencial criar um conceito forte para a Baixada Santista no mercado turístico nacional e (por que não?) internacional. É inútil buscar essa imagem nas praias, utilizar palavras como "paraíso" e soluções que não constituem diferencial mercadológico, nem apresentam competitividade em relação a outras localidades do próprio litoral paulista.
O grande fator diferencial turístico da Baixada Santista tem o seu núcleo no fato histórico que acaba de ser encenado em São Vicente: a fundação da primeira vila brasileira. E é importante ressaltar que tal fato não se limita a definir o início da colonização, que justifica a expressão "celula mater da nacionalidade" aplicada à São Vicente.
O fato tem alcance muito mais amplo. Historicamente, constitui o ato inaugural de um processo de realizações pioneiras, que é marca característica da região. Aqui foi fundada a primeira Câmara das Américas; aqui nasceu a iniciativa que desembocaria na Independência do Brasil, com José Bonifácio; aqui começou o processo de reconquista da autonomia dos municípios, durante o governo militar. Isso na área política. Na ciência, temos as experiências precursoras do Padre Bartolomeu de Gusmão. Na economia, os primórdios da indústria brasileira, com os engenhos de açúcar. No esporte, o início do surf. Na cultura, um pioneiro festival de música contemporânea. E vai por aí afora.
Tudo isso significa que a Baixada Santista tem como marca, como conceito, a característica da realização de atos pioneiros em nossa História. Não é algo que aconteceu um dia, uma época. É algo que sempre aconteceu, que vem ocorrendo desde a época de Martim Afonso, que continua a acontecer em nossos dias.
Não se confunda portanto, mercadologicamente, Porto Seguro com São Vicente. Porto Seguro é o lugar onde o Brasil foi descoberto, apenas. E parou por aí. Sua realidade geopolítica, hoje, é de um recanto isolado, vende-se o paraíso, a volta às origens, a "descoberta interior" de cada um, muito mais do que o descobrimento do Brasil. São Vicente, onde começou a colonização, está inserida numa realidade urbana metropolitana. Continuou a acontecer, desmembrou-se em outras vilas e cidades, como Santos, depois Cubatão, Guarujá, Bertioga e outras. Aliás, em relação a Santos, é lamentável que tenham sido abandonados os esforços para mostrar a sua longevidade.
Com o evento da encenação da fundação de sua vila, no porte em que foi montado, São Vicente acaba de dar a toda a Baixada Santista uma excelente oportunidade para o início de um trabalho de projeção turística e cultural que pode ser muito produtivo, se realizado com habilidade. Basta fazer ligações entre o passado e o presente para criar novas possibilidades de eventos ou atrações (o Porto das Naus e o maior Porto da América Latina, o início da indústria e o polo petroquímico etc).
Deixar passar essa oportunidade é oferecer um atestado, como disse Theodore Levitt, de miopia de marketing.

Comments


bottom of page