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A Bordo do Bremen


Porto de Santos, manhã do dia 18 de junho de 1988. No pavilhão do evento Banzai, estão sendo finalizados os preparativos para a comemoração dos 80 anos da chegada da primeira leva oficial de japoneses que entraram no Brasil por ali. Em poucas horas, a celebração vai ser inaugurada com a atracação simbólica de um navio repintado com as cores e o nome do vapor que trouxe as famílias imigrantes do Japão, o Kasato Maru. Tu tá ali por conta de mais um projeto que se revelaria precoce, como muitos outros, gestado antes do momento certo. Não há ainda as condições políticas e econômicas adequadas para que vingue na região um escritório de fomento ao turismo, nos moldes dos convention and visitors bureaux que já são realidade na Europa e nos Estados Unidos há quase cem anos. Tu pressente isso, esse presente deslocado que te parece destino. E, de repente, te sente cansado daquele burburinho. Procurando fugir um pouco da movimentação, tu te afasta do estande da Fundação Pró-Turismo, e caminha em direção ao local da atracação. Lá, de pé em frente ao cais, tu tira do bolso e desdobra um papel já amarelado pelo tempo, um documento sem título datado de 26 de setembro de 1939, que autoriza um agente de viagens, ou despachante, a tratar de providências quanto à Carteira Modelo 19 do Alfaiate. Tu lê e relê detidamente, demoradamente, o texto do item Assunto:


... chegou ao Brasil, Santos, em 14 de Janeiro de 1924, abordo do vapor "Bremen", procedente de Portugal, sem mais se auxentar. Chegou ao Brasil a bordo do vapor Bremen, sem mais se ausentar. O teu pensamento se move desse presente deslocado que te parece destino para o passado aparente de tua origem. Para um momento em que não só japoneses mas também portugueses, espanhóis, italianos e outros povos migram em bandos para as terras americanas. Teu pensamento pousa em outro porto, a cidade do Porto, Portugal, em algum dia antes do Natal de 1923. Na margem do Douro, acompanha a passagem do Alfaiate, ainda nos seus quinze anos e aprendiz do mundo, contornando o rio em direção às praias, a caminho do porto de Leixões. Ele observa cada detalhe do Douro, dos barcos à frente das caves às aves bicando as águas, como querendo reter na memória todas as nuanças da terra que vai deixando. Chegando perto do porto recém construído ao norte do Porto, já separando os documentos para o acesso a bordo, divisa o nome no costado do navio em que vai embarcar. King Alexander. Mas o nome não era Bremen? Sua inquietação é interrompida pelos empurrões que o impelem para frente, para cima, até chegar ao navio. São apenas alguns segundos o quanto dura o percurso da escada. Mas, nesse curto momento, do primeiro passo que divide seu corpo entre o cais e a escada, ao último passo em que seu corpo se equilibra entre a escada e o piso do navio, desfilam em sua mente centenas de cenas, milhares de imagens e sons. A pequena freguesia de Tresouras acordando ao calor do primeiro raio de sol no duro inverno no monte. O Douro lá em baixo, fluindo impassível aos temores da vizinhança. A ausência crescente de perspectivas, um vazio se expandindo para o futuro, como uma fenda que se abre no chão e se alastra por toda a terra. A materna expressão sombria da mãe e a vaga sisudez do olhar paterno. Entre as sensações que experimenta nesse breve trajeto interminável, sente instaurar-se com enorme força uma visão da sacada do pequeno sobrado da família, na aldeia. Feito um sonho, lá de cima várias pessoas sorriem para ele, quase como acenando. Pessoas que não reconhece, algumas, outras que parecem mais velhas, como familiares rasgando o tempo, anos à frente. Já no topo do navio, desvencilhado da corrente humana que o arrastara escada acima e dos trâmites legais de acesso a bordo, busca um lugar onde possa se recostar, enquanto avista o mar que vai navegar afora. Ali, pouco antes de ser chamado, com todos os passageiros, a se recolher à cabine, tem o que depois considerará a primeira sensação transiente. Não sabe dizer bem se experimenta a transiência, denominação que os transeuntes dão ao deslocamento entre camadas. De qualquer modo, é uma sensação muito forte de ouvir palavras que não são suas, não são propriamente suas, mas que parecem ter nascido de sua cabeça. Só que o ambiente ao redor lhe é desconhecido, embora reconheça detalhes percebidos nas fotografias de seus parentes no Brasil. As palavras vem d´além-mar, sem dúvida. E formam uma poesia, uma pequena poesia. De quem serão tais palavras, tal poesia? A sensação de transiência se intensifica diante da ansiedade, e ele se vê perante uma figura estranha, sentada a uma mesa de bar, rabiscando um papel amarrotado. Pensa em lhe dirigir uma pergunta, mas se distrai com ruídos que vem de uma praça ao redor, e os sons do sino de uma igreja. Quando se volta, a figura já não está lá, e a transiência o leva de repente de volta ao convés. Ecoam apenas em sua cabeça as palavras. Navegar é preciso Viver não é preciso Navegar é preciso Além A nave partida Da terra querida A vista perdida Além E a alma sofrida Em busca dorida Alenta uma vida Além Quando ouve o terceiro "além", sente um grande cansaço, uma grande sonolência. Suas pálpebras ficam pesadas e, antes que desfaleça, respira fundo e desce rapidamente, quase correndo, os andares que o separam da cabine, onde uma desconfortável cama vai embalar como rede o seu corpo cansado. Teu pensamento também se recolhe ao cais do porto de Santos, diante do local onde vai atracar um simbólico Kasato Maru. Tu respira fundo, relaxa o corpo, e te volta em direção ao pavilhão do evento. Em dado momento dessa breve caminhada, parece que tu ouve três apitos de navio, como se algum estivesse prestes a atracar. Tu te vira, e lá está ele, o SS Bremen chegando ao porto de destino. Tu te detém e fica observando o vapor atracar. Em certo momento, o reflexo da luz do sol no casco do navio te dá a impressão de ter lido "Kasato Maru", a luminosidade de ofusca a visão, tu cobre os olhos com as mãos, muda ligeiramente de posição, e o nome da embarcação volta a ser "Bremen". Quando acaba de encostar, e uma ponte é estabelecida com a terra, tu te sente levado por uma força qualquer a subir a escada. Ninguém questiona teu gesto, ninguém te impede. Logo tu chega ao convés, passando por tripulantes e passageiros que pelos corredores se movimentam ansiosos. Lá em cima, tu depara com uma figura solitária, virada para o lado oposto do cais, como se estivesse ainda contemplando as vagas do oceano, perdido em divagações. Tu te aproxima e percebe ser o Alfaiate, em tenra idade. Ele termina de dobrar e guardar no bolso do paletó uma folha de papel, uma carta talvez, que presumivelmente acabara de ler. Tão absorto está que parece não notar tua presença. O que te permite chegar ao seu lado, e assumir a mesma posição de observador daquele imaginário oceano. Mas, de repente, para tua perplexidade, o oceano real se revela em toda a sua plenitude à tua frente. O navio não está mais ancorado no porto de Santos. Tu te encontra em alto mar. E, quando tu ainda tenta te refazer do espanto, a luz do sol desaparece num átimo e um manto escuro cobre de breu todo o horizonte, enquanto ruídos de música, risos e o burburinho de um grande alvoroço a bordo chegam longínquos aos teus ouvidos, culminando num estrondoso e coletivo grito de saudação ao ano novo. Instante oportuno para o convite a um brinde e início de uma longa conversa na solitária noite do Atlântico.

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