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O Museu de Imagens e de Sombras


Ninguém sabe exatamente quando foi construído. Acham que foi no século vinte porque se diz que é triplamente inspirado no Museu da Imagem e do Som, no Museu de Imagens do Inconsciente e na Biblioteca de Borges (e em seus prefácios de livros imaginários), que são referências da época. Mas isso não vem ao caso, agora. Que chegue o instante certo de saber essas coisas. Por ora, é percorrer o lugar.

Logo no saguão, assim que se passa pelo portal, há o poema Sete Fluxos da Memória, insistentemente escrito e reescrito no chão, onde se dilui constantemente, como texto na areia ao soprar do vento. É a referência capital ao misterioso narrador dos Cantos Correntes, o anjo do guarda-livros, narrador, interlocutor da história oficial da Costa Mater, guardião da memória, anjo  observador, nem protetor nem exterminador.

No extremo oposto, onde fica a saída do Museu, não há um portal ou qualquer marco físico especial da passagem de estar dentro para estar fora do recinto. Há apenas uma grande abertura, um vão imenso que parece o inverso do que poderia ser um enorme paredão. Não se sabe se o espaço já foi assim definido pelo arquiteto que o projetou, ou se o engenheiro que o construiu não chegou a finalizar. Na realidade, não se sabe quem foram, ou se foram, esse arquiteto e esse engenheiro. Na dúvida, passaram a chamar o eventual responsável como O Artífice.

Entre o saguão na entrada e o vão de saída, há um labirinto imenso de galerias, alas e torres tão virtuais quanto o seu acervo de personagens, lugares e fatos, diante dos quais qualquer semelhança é coincidência impura. Aliás, sobre esses há muito (ou pouco) a se falar. Porque, de fato, não existe nenhum. Ou existe o que cada visitante quiser encontrar. Quando não é o próprio visitante que se vê em exposição, de repente, ao dobrar um corredor e se deparar com um canto qualquer. Pode ser ele mesmo, pode ser uma simples projeção de uma característica, um tique nervoso, um jeito de olhar, um sotaque especial, ou algo totalmente estranho a ele mas que, paradoxalmente, não impede que se possa reconhecê-lo. Há muitos casos que correram ouvidos e bocas das gentes da Costa Mater. Durante muito tempo, falou-se de ABZ, poeta que foi o primeiro dono do Bar do Bardo, nome com que ficou conhecido o seu botequim criado nos primórdios da comunidade, e que às vezes é chamado também de Bar dos Bardos. Curiosidade do local é que, em lados opostos ao bar, ficam a Banca do Distinto e a Banca Rota, em torno das quais se reuniam os grupos que apelidaram de Anjo o futuro Anjo do Guarda-Livros. Obstinado cantor das belezas da Costa Mater, ABZ dedicou toda a vida a escrever uma enciclopédia (de AB a Z) de todos os recantos e manifestações do local. Muita falação deitou também sobre Adê, misteriosa moça que caminhava pelas calçadas internas do Canal 3. Seu nome nunca foi descoberto, mas alguns achavam que era Ademilde (humilde Ademilde), outros que era Adelita (dileta Adelita), e havia também os que preferiam Adelaide (Lady Adelaide). Pelo anacronismo de sua saia pregueada e blusa bordada, além do semblante passadiço, falava-se ainda de Adê A.D. (anno Domini). Existe muito mais. Pessoas. Só para citar alguns, há o Braz, a Nega Eva, o Dejavi, o Guarda-Livros, o Jovem Gilberto e a Jovem Guarda-Livros. Sem esquecer de Leônidas Ramos, Madame Pochette, o Mano Prático, a Nega Petinha, Neguinho, Zezinho e Luizinho, Nec Plus Ultra e Non Plus Ultra, Nihil Obstat. Lugares. Além da Costa Mater em geral, tem a Cidade Alta, a Cidade Baixa e a Cidade Média, as ilhas de Algures, Alhures e Nenhures, o Engenho, o Farol do Engenho. A Câmara dos Viajores, a Câmara dos Transeuntes, e a Câmara dos Transutentes. Objetos, muitos, dentre os quais avulta o misterioso Bahu, onde, dizem, estão todos os livros e registros de fatos, pessoas e lugares da Costa Mater. Este, de longe, tem sido o mais enigmático e mais desconhecido, ou menos descoberto, dos vultos e objetos que fazem parte do Museu de Imagens e de Sombras. Conta a lenda, ou a lenga-lenga, que apenas um casal de auditores, Nihil Ultra e Audite Nova, conseguiu descortiná-lo e ter acesso ao acervo que contém. Foi por eles que se tomou conhecimento de muita coisa da história do local e de outras paragens. Mas, mesmo assim só a partir do que os auditores revelaram, como portadores ou escrutinadores das palavras do Anjo do Guarda-Livros. E fatos. O insondável e questionado princípio de tudo, a história jamais confirmada das origens da comunidade, que move a infinita pesquisa do Auditorium.  Desconfia-se, por fim, que o Museu de Imagens e de Sombras não passa de uma premeditada ilusão para desorientar as investigações, e manter a comunidade livre para se desenvolver e atingir os seus destinos e propósitos. Algo que, paradoxalmente, parece ser desconhecido de todos. Ou talvez seja tão instintivo e natural que ninguém consegue conscientizar.


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