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Canal 1: DO UTensílio


Conforme o Auditor-Mor dissera a Nihil Ultra, em entrevista no Auditorium, aí está o enigma, à tua frente, como uma espécie de senha a ser descoberta e que, revelada, te introduzirá ao percurso do Canal 1.














TEMA DE ABERTURA: COMPORTA 1



Tu lê o poema atentamente, observa cada detalhe da figura, escuta seletivamente cada nota da breve sequência melódica da concisa peça musical. E fica ali repassando várias vezes a mensagem, procurando te concentrar nos mínimos detalhes, em possíveis vinculações com a comporta que regula a direção do fluxo das águas. "Deve haver razão de crer a creditar". Então, tu sente o primeiro efeito da mobilidade dos transeuntes. De repente, tu já não está mais na praia, no ponto em que o canal se lança sobre a areia e chega à água. Tu está parado na calçada central da Rua Rangel Pestana, na esquina de cruzamento com a Rua Júlio Conceição, diante do prédio do Colégio Tarquínio Silva, uma imagem que te remete às proximidades de 1960.

Parece que tu vai entrar por aquela porta lateral, chegar à sala de aula no primeiro andar, e ouvir a velha lição sobre a geografia local. O Canal Um é o mais antigo e extenso dos canais de irrigação de Santos, idealizados e construídos pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, para resolver os problemas de saúde pública da cidade em inícios do Século Vinte. Percorre a Avenida Senador Pinheiro Machado, desde a Praia do José Menino, perto da divisa com São Vicente, a Rua Rangel Pestana, onde o curso de água passa subterrâneo no trecho em que está o Colégio Tarquínio Silva, e a Avenida Campos Salles até a Bacia do Mercado, no Estuário do Porto. É uma espécie de tronco de onde se ramificam os canais Dois e Três, além de outros menores, como o da Avenida Barão de Penedo, no bairro do José Menino, perto da praia; o da Avenida Moura Ribeiro, no bairro do Marapé; e o da Avenida Francisco Manuel, no bairro da Vila Mathias, os dois vindos das beiradas do morro da Nova Cintra. Um outro deslocamento te coloca na mesma posição algumas décadas antes, quando a água corria a céu aberto.

O lampejo de uma realidade desconhecida penetra a tua mente, entre a superfície e o subterrâneo. Por certo, há o visível e o invisível. Deve haver. Há o tangível e o intangível. Razão de crer. Há o sensível e o imaginável. Acreditar. A creditar.

O utensílio, objeto concreto, o corpo, implica uma habilidade de uso, artefato abstrato, a mente. UtenSíliO. Começo de escala em hino, começo de escada, ensino. Em sino: evocação do som. Vocação do ser. E tu capta o sentido do percurso ao longo desse canal: descobrir tuas predisposições, tuas latências nos múltiplos papéis que tu desempenha: o transeunte, o apanhador de pipas cadentes e outros mais. Mas, principalmente, o de guarda-livros.

Assim, tu pega os livros, todos eles, e começa a abrir um por um, a folhear detidamente cada página, atento a todos os lançamentos, que tu passa a registrar em outra camada da realidade. A tua consciência. E tua vocação começa a descortinar teus sentidos. Teus rumos começam a ser traçados, e trilhados. Alea Jacta Est, diria Dona Marília, a professora de latim. A sorte está lançada. Dados lançados. Aos lançamentos.


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